Blog

Sobre os Mitos do Capitalismo Americano e a Ascensão da Nova Direita

Todo poder necessita de mitos, isto é, construções ideológicas extraídas do senso comum que despertam nos indivíduos sentimentos de identificação e adesão, e, ao mesmo tempo, escondam ou relativizam as relações de poder reais que não encontram justificativas no senso comum. Não há processo de mudança e seguramente não há processo de mobilização popular que não ataque os mitos preexistentes e construa novos mitos, uma nova utopia, como bandeiras aglutinadoras das massas. Nos últimos anos a ascensão da nova direita tem ocorrido em diversos países através não de golpes de Estado, mas de vitórias eleitorais após intensa (e inédita para as forças de direita) mobilização de ‘corações e mentes’ reproduzindo e mesmo copiando os métodos historicamente utilizados pela esquerda em suas históricas lutas contra o poder e o status quo. Esta tese do ‘mimetismo’ de Thomas Frank sobre o ressurgimento da altright (Tea Party) nos EUA é bastante sugestiva não…

Oligarquia e Oligarcas

A oligarquia é um regime político em que uma diminuta parcela da população dotada de extraordinários recursos materiais governa para si. No seu livro Oligarchy Jeffrey Winters (um cientista político americano) apresenta uma análise original sobre o poder dos oligarcas- atores que comandam e controlam recursos materiais extraordinários-   entendendo por poder o conjunto de estratégias e de políticas tomadas por estes atores visando a preservação da sua riqueza. A extrema concentração da renda e da riqueza é a base da existência dos oligarcas. Ele examina a estratégia destes atores em diversas economias (“plutonomy) tanto nos dias atuais – como na Indonésia, nas Filipinas, em Cingapura ou nos EUA, bem como diversas outras ao longo da história.  Ao contrário do pensamento liberal moderno (Douglas North, Acemoglu, etc) que identifica oligarquia com a elite no poder e que, tal como predomina no Brasil atual (e desde sempre, com Sergio Buarque, etc), considera a sua formação…

Raízes Americanas da Ascensão da Ideologia de Direita no Brasil

A FSP de hoje publicou interessante artigo de Christian Schwartz sobre a violência anti-intelectual da classe média numa linha já explorada em artigo de Eliane Brum, publicado neste mesmo jornal. Ambos artigos discutem o triunfo da nova direita no país a partir do triunfo do ‘homem mediano’ (como se referiu Eliane ao eleitor do Bolsonaro), do ‘ignorante empoderado’ como classificou Christian aos valores anti-intelectuais da classe média brasileira atual. Como eu venho insistindo há um tempo, creio que o que veio se passando no país no plano das ideologias tem raízes com o que se passou nos EUA. Com efeito, como examinado por Thomas Frank (Pity the Billionares), Jesse Duke, um dos animadores do Tea Party (grupo que apoiado por bilionários conservadores liderou um movimento para a direita no partido republicano) argumentava que a América estava dividida em duas classes que nada tinha a ver com a renda ou a riqueza…

SANÇÕES E GEOECONOMIA VISTAS DA PERIFERIA: Informações banais sobre pautas sérias

Não sei se vocês viram as notícias sobre as recém-aprovadas sanções dos EUA à Rússia. Para variar, a ignorantsia (variante exclusivamente local da ‘intelligentsia’) que pontifica na nossa imprensa deixou de fora o item mais importante da matéria. Reproduziram toda os chavões empacotados pelos press releases da Casa Branca sobre hackers, eleições americanas, terrorismo, etc. Mas nenhum, repito, nenhum órgão da mídia escrita, falada ou internetizada da nossa republiqueta mencionou o pequeno detalhe de que, uma vez que firme a nova lei de sanções, Trump poderá, com uma canetada, interromper todo o trabalho de construção do gasoduto Nord Stream 2, que tem um orçamento (CAPEX incluindo custos de financiamento) de mais de US$ 11 bilhões, e que permitirá a expansão do fornecimento de gás russo a Alemanha e, por seu intermédio, para outros países europeus ocidentais. Para que se estime o seu impacto, esse gasoduto, quando finalizado, praticamente dobraria a…

PIB, demanda efetiva e variação de estoques: uma visão pessimista do que já ocorreu em 2017

Os dados do PIB relativos ao primeiro trimestre de 2017 foram bastante comemorados pelo Governo. De acordo com a versão oficial, a expansão de 1% registrada no primeiro trimestre de 2017 já significaria, após oito trimestres de queda, o fim da recessão. Otimista, o ministro da Fazenda tem declarado que o país já se encontra na direção correta, ainda que falte um caminho a ser percorrido para uma plena recuperação. O Gráfico 1 mostra o índice do PIB desde 2010 e já deixa bastante claro o quão pequena foi a reversão registrada no último trimestre, diante da intensidade do processo recessivo do período 2015/16. Considerando o acumulado dos últimos quatro trimestres contra os quatro anteriores, a queda do PIB ainda é de 2,34%. Considerando este último trimestre contra o primeiro trimestre de 2016, a queda é de 0,35%. Em sua pretensão de gerar expectativas positivas, o Governo tem dado total…

UMA FARSA QUASE TRÁGICA: A ESQUERDA “MODERNA” E A AMEAÇA FASCISTA

De acordo com Josef Stalin (1934):

A vitória do fascismo na Alemanha deve ser vista não só como um sinal da fraqueza da classe operária e o resultado da traição da social-democracia, que abriu o caminho ao fascismo. Ela deve ser vista igualmente como um sinal da fraqueza da burguesia, um sinal de que a burguesia já não tem condições para exercer o poder segundo os métodos parlamentares da democracia burguesa, motivo pela qual se vê obrigada a recorrer, na politica interna, aos métodos terroristas de governo.

Em relação à nova ameaça fascista que enfrentamos atualmente a situação é parcialmente diferente. Nos anos 30 do século passado, os liberais toleravam o fascismo para barrar o crescimento da esquerda. Agora é a “nova” esquerda que está ajudando os fascistas a dar uma sobrevida ao neoliberalismo.

Navegando em Círculos

Em dois textos recentes, CARNEIRO (2017) e CARNEIRO & MELLO (2017), Ricardo Carneiro propõe uma interpretação de por que teria dado errada a condução da economia nos governos Dilma e faz uma proposta de solução do problema da retomada do crescimento. No primeiro texto, faz algumas criticas a SERRANO & SUMMA (2015). Aqui nos parece que vale a pena uma réplica, principalmente porque a proposta de saída da crise atual é surpreendentemente parecida com alguns aspectos da politica que nos levou a crise atual.

A Questão da Previdência Publica e a Natureza do Sistema de Repartição

A questão da previdência entrou definitivamente no centro do debate político e econômico como um elemento importante da agenda de reformas conservadoras. Tal discussão oscila entre debates contábeis, ideológicos e até demográficas. Sem diminuir a importância de tais questões, é curioso notar que ao se tratar de um tema eminentemente econômico o que menos se observa é, exatamente, o aprofundamento do debate, e confronto de ideias, segundo abordagens teóricas distintas.

Navigate