Quatro Questões sobre o Mundo Pós Covid 19

Carlos Medeiros entrevistado por Carlos Pinkusfeld Bastos (ambos do Grupo de Economia Política do IE-UFRJ) em 16/04/2020

1) C.P.B.: Há 12 anos ocorreu uma grave crise na economia mundial durante a qual pela dimensão da intervenção pública foi extraordinária o que estimulou algumas pessoas a pensarem que haveria mudanças definitivas na gestão dominante das economias capitalistas. Nada mudou e o mundo ocidental continuou convivendo com desigualdade e baixo crescimento (a chamada estagnação secular). A presente crise será muito mais profunda como também a intervenção. Essa mudança de patamar sugere que haja também a tão esperada mudança de 2008 que acabou não ocorrendo?

C.M.: Após a Grande Crise de 2008-9 os EUA introduziram políticas monetárias (inclusive não convencionais) e fiscais de corte Keynesiano e esta direção foi seguida (com muita relutância União Europeia) nas principais economias ocidentais mas rapidamente houve um retorno ao status quo da política econômica ortodoxa centrada na austeridade fiscal, integração financeira e nas vantagens do livre comércio turbinado pelas Cadeias Globais de Valor (CGV) em prol de uma globalização neoliberal 

No plano das doutrinas econômicas as teorias macroeconômicas e microeconômicas dos economistas do mainstream e adotadas nas organizações multilaterais seguiram dominantes a despeito do baixo crescimento da renda e do emprego na economia mundial. 

A persistência deste contexto e sobretudo a ascensão da China que desenvolveu um amplo programa de investimentos em infraestrutura e alta tecnologia, provocou nos anos mais recentes uma mudança de atitude dos EUA após a eleição de Donald Trump em 2016 com o seu ‘America First’, generalizando reações nacionalistas de direita na Europa e na periferia em oposição ao não apenas aos fluxos migratórios, mas também ao neoliberalismo globalizante. 

É possível especular se pós a pandemia do Covid 19 haverá ou não também uma restauração conservadora como a que se deu com a crise de 2008. 

Embora ainda não se disponha de suficientes informações, vai se formando um certo consenso de que devido às suas dimensões e escala o mundo pós-crise não será idêntico ao mundo pré-crise. 

Por sua extensão e profundidade, a crise do Covid 19 é de outra natureza, afetando a cadeia de supridores e a demanda final atingindo simultaneamente e profundamente todos os países. 

O distanciamento social universalmente adotado como forma de contenção da propagação da pandemia tem provocado uma abrupta contração naquelas atividades cuja produção e consumo se dão de forma coletiva com elevada densidade com extraordinário impacto sobre a renda e o emprego. O lockdown parcial da oferta e a contenção da demanda global afetou todas as economias. 

Como observou Alan Tooze: 

“Across the world, hundreds of millions of people have been thrown out of work. From the street hawkers of Delhi to the personal trainers of LA, the service sector – by far the most important employer in the modern economy – has been poleaxed. Never before has the global economy suffered a shock of this scale all at once. In the US alone, at least 17 million people have lost their jobs in the last three weeks. A severe global recession is now inevitable.”

A estimativa de crescimento mundial segundo a Fitch é -1.9% o que será a primeira contração do PIB mundial desde o fim da Segunda Guerra Mundial!

A projeção de crescimento da economia chinesa para 2020 oscila entre 0.1% a 2.3% contra os 6.1% registrados no ano passado. Nos EUA a estimativa da Fitch é de -3.3% (mas a da Goldman Sachs é -10%), a projeção do Banco Mundial para a América Latina é -4,6%, e de -5,0% para o Brasil.

No plano macroeconômico as principais economias lançaram amplo programa de transferências de renda (independentemente de qualquer consideração fiscal) e abrangente expansão de crédito e subsídio às empresas. Não se trata aqui de um estímulo clássico à demanda como forma de combate à recessão pois esta é uma inevitável consequência da política de contenção do vírus, trata-se essencialmente de políticas macroeconômicas compensatórias dirigidas aos grupos sociais e as empresas mais vulneráveis e sob risco de sobrevivência. 

Tais medidas contrariando a ortodoxia fiscal prevalecente passaram a ser rapidamente endossadas e defendidas pelos economistas e pelas instituições multilaterais. De uma forma geral, e numa proporção muito mais eloquente do que a ocorrida no imediato 2008, já houve uma ampla reconversão ao Keynesianismo com a defesa da subordinação da política fiscal à necessária provisão de renda e emprego.

Além de uma política fiscal compensatória, os austeros e contumazes defensores do mundo neoliberal como o Financial Times, The Economist e diversos economistas do mainstream passaram a defender reformas radicais inspiradas nas grandes iniciativas como as do New Deal do presidente Roosevelt, a de Bretton Woods, o Relatório Beveridge em prol de um novo contrato social, renda básica, redução da insegurança e da precariedade dos mercados de trabalho e investimento público. 

O neoliberalismo sobreviveu a grande crise de 2008 com um breve mas eficaz keynesianismo, é possível e provável que uma vez superada a ‘economia de guerra’ que se afirmou na maioria dos países, ocorra novamente uma restauração conservadora, entretanto esta é uma crise diferente, mais profunda e multidimensional e por isto em resposta à insegurança, ao desemprego em massa e a provável explosão de descontentamento, surjam maiores oportunidades para uma nova regulação do capitalismo em que a tecnoburocracia, o planejamento e as corporações científicas ganhem mais legitimidade e voz face à lógica dos interesses mercantis e corporativos. 

Entretanto este cenário requer a formação de coalisões sócio-políticas de orientação socialdemocrata capazes de levar a frente as iniciativas e percepções em curso.

2) C.P.B.: Uma das características desse século já vinha sendo um veloz catch up da China com os EUA na tentativa de construção de um mundo geoeconômico e geopolítico multipolar. O famoso relatório Made in China 2025 já vinha causando uma reação mais nacionalista nos EUA, através do Governo Trump. Essa crise tem como uma das originalidades a quebra das cadeias produtivas com a exposição de limitações do arranjo produtivo atual. Na sua opinião essa ruptura pode trazer consequências de radicalização das políticas dos EUA e Europa?

C.M: Branko Milanovic (na Foreign Affairs de março de 2020) argumenta que as consequências desta pandemia não poderão ser simplesmente remediadas pela macroeconomia pois resultarão em substancial mudança na economia global. : Do mesmo modo, em recente nota a OMC sublinhou a diferença específica da atual crise, que ao contrário da crise de 2008, essencialmente macroeconômica, esta afeta de forma substancial a estrutura da oferta especialmente os serviços a cadeia de supridores articuladas por cadeias globais de valor (CGV) particularmente em atividade de média e alta tecnologia. 

Um aspecto central é a imprevisibilidade do seu horizonte temporal considerando a sua natureza global e possível geração de novas ondas do vírus importado de países tardiamente expostos ( que já está ocorrendo na Ásia) e inclusive o temor de que uma nova epidemia possa estar no horizonte próximo (algo que Jared Diamond considera se provável). Esta percepção deve motivar estratégias de autossuficiência e de afastamento entre as nações além de estratégias industriais e tecnológicas visando blindar as economias para novos eventos.  

Já está em curso nas principais economias uma defesa forte da política industrial suscitada pela dependência ou incapacidade das economias na produção dos equipamentos de proteção individual e os respiradores artificiais essenciais para o enfrentamento da pandemia bem como seus insumos e bens intermediários. A insegurança econômica revelada pela concorrência sobre fornecedores e alta dependência das economias à provedores externos e cadeias produtivas que não dominam, aponta para uma defesa deliberada política industrial vertical. 

Esta questão geral deve ser observada num contexto de acirramento da disputa geopolítica entre os EUA e a China em ampla ascensão desde o início do governo Trump. Com efeito, tendo em vista a capacidade industrial desenvolvida na China nas últimas décadas e sua rápida reconversão industrial e mobilização de recursos voltada ao massivo enfrentamento do Covid 19, o país é hoje o maior produtor mundial dos equipamentos médicos necessários a este combate e é também o maior produtor mundial de antibióticos cuja demanda tende a subir com o agravamento da pandemia. Os EUA, em contraste é fortemente dependente da importação destes insumos e máquinas essenciais 

Efetivamente a pandemia vem acirrando ainda mais a crescente rivalidade entre os EUA e a China. Uma rivalidade por narrativas sobre a sua origem e sobre ação chinesa, uma rivalidade sobre os sistemas econômicos e sobre tecnologia. Enquanto os EUA são acusados de desviar suprimentos da China para a Europa, a China amplia sua oferta de equipamentos disponíveis para a economia mundial exportando entre março e abril US$1,45 bilhões de suprimentos médicos!  É evidente que a vitória da China na contenção do vírus e a lenta resposta americana trará evidentes impactos geopolíticos.

Esta questão fica mais clara quando se considera as distintas experienciais nacionais de enfrentamento da pandemia.

É possível identificar claramente distintas formas de intervenção do Estado no controle da pandemia com distintos graus de sucesso e que de algum modo se projetam como estratégias que terão impacto sobre as relações entre o governo, a economia e a sociedade afetando a dinâmica da disputa entre os EUA e a China: 

– A via chinesa, ou asiática pois também seguida em Taiwan, Cingapura, Coréia do Sul. Trata-se de uma via abrangente de ‘rastrear, testar e isolar’ combinando uma estratégia de conversão industrial para a produção de equipamentos, ampla coesão social e uso massivo de inteligência artificial (IA);

– A via seguida nos EUA após a displicência inicial centrada numa combinação de transferências fiscais à população de baixa renda, subsídios aos empregadores e mercantilismo visando o aprovisionamento de equipamentos de saúde importados da China;

– A europeia centrada mais uma vez na inação decorrente dos limites macroeconômicos instransponíveis impostos pela União Europeia mesmo com o relaxamento das metas fiscais (apesar da Merkel se referir à maior crise do pós-guerra não saiu qualquer coronabônus). ; os resultados nacionais são assim inteiramente heterogêneos: 

– A alemã que devido ao teste massivo da população e medidas de prevenção (mais próximo da via asiática) teve baixo índice de incidência 

– As catastróficas experiencias da Itália e Espanha geradas por um tardio lock-down e incapacidade de enfrentamento decorrente de baixo investimento na saúde e lenta capacidade de resposta industrial. 

3) C.P.B.: Historicamente a queda da desigualdade costuma ocorrer de forma descontínua, afetado por eventos radicais como guerras e até pandemias. Obviamente que as consequências não são lineares como o exemplo histórico da própria Peste Negra. Quais seriam os argumentos a favor e contra tendências de maior ou menor concentração de renda.

C.M.: Colocando-se numa perspectiva histórica em relação às grandes crises, é possível dizer que tanto a política econômica, quanto a construção de coalisões sociais-democratas e desenvolvimentistas e a própria direção do progresso técnico foram resultados de grandes eventos que por sua violência e dramaticidade mudaram as instituições e com elas mudaram tanto a distribuição da renda quanto as estruturas sociais e oportunidades de desenvolvimento. 

Assim, por exemplo em relação à distribuição de renda Walter Scheidel em The Great Leveller (2017) inspirado num quadro de Albrecht Durer (The Apocalypse, 1497-1498) observou que ao longo da história da humanidade, a desigualdade de renda e riqueza só foi reduzida de forma substancial em consequência de eventos violentos responsáveis por massiva destruição de vidas. Para o autor, as guerras, as revoluções, o colapso do estado e as pandemias foram os ‘Niveladores’, ou os 4 Cavaleiros do Apocalipse, como ele os denominou. Todos estes eventos provocaram por sua letalidade e destruição massivas, profundas transformações na economia, na sociedade e nas suas instituições reduzindo a desigualdade pré-existente. 

Estas transformações, entretanto, não foram determinísticas, as crises violentas criaram oportunidades, mas estas só resultaram em mudanças na presença de determinadas instituições e escolhas políticas. Considerando este último ‘cavaleiro’, Scheidel observou que a Peste Negra, uma pandemia que ceifou cerca de 25% da população na Europa no século XIV se de um lado ao reduzir a oferta de trabalhadores livres permitiu uma elevação do salário (e diminuição da renda da terra) na Europa Ocidental com um forte impacto distributivo, na Europa Oriental onde a servidão afirmou-se, esta evolução distributiva não ocorreu. Do mesmo modo, em outra realidade social e sob o controle colonial, a pandemia da varíola no novo mundo trazida pelos espanhóis dizimou a população asteca e aprofundou imensamente a desigualdade.

A Segunda Guerra mundial tal como a Primeira Guerra Mundial provocou uma destruição massiva e grande letalidade e foi sucedida por substancial redução da desigualdade. Esta, entretanto teve o concurso extraordinário da vitória militar e social da URSS e o temor do socialismo foi o fator essencial que transformou profundamente o capitalismo do pós-guerra (Eric Hobsbawn). A estrutura de poder no capitalismo regulado (David Kotz) incluía uma ampla coalisão de interesses incluindo os do trabalho e promovia não apenas uma decidida intervenção do Estado na economia visando o pleno emprego, mas incluía uma ampla ação coordenada em diversas áreas estratégicas como a alta tecnologia, a infraestrutura e sobretudo a provisão de bens públicos na saúde, educação. Era necessário enfrentar e derrotar os 5‘demônios’ a ‘necessidade, doença, ignorância, miséria, desemprego’ como explícito no famoso Beveridge Report. O National Health Service da Grã Bretanha foi o resultado deste enfrentamento.

No após II Guerra o temor ao socialismo subordinou nas economias capitalistas industrializadas a princípios, instituições e organizações não capitalistas; entretanto com fim do socialismo e a dominação global do neoliberalismo, o proletariado de fato foi derrotado e alijado das coalisões de poder, exclusivamente formada por um ‘comitê de representantes das corporações’. 

Austeridade fiscal, redução dos impostos aos ricos, privatização e mercantilização dos bens públicos, desemprego e estagnação dos salários reais, precarização do mercado de trabalho reverteram inteiramente desde os anos 1990, as condições responsáveis pela coesão social historicamente observados no capitalismo avançado, particularmente nos EUA e Inglaterra. A desigualdade aumentou de forma substancial. O baixo crescimento ocorrido desde a grande crise de 2008 acentuou esta evolução. Na área da saúde, a redução do investimento público tem sido a marca tanto nos EUA quanto na Inglaterra e entre diversas economias europeias. 

O capitalismo contemporâneo, o capitalismo neoliberal é mais semelhante ao descrito por Marx e Engels no século XIX em que a desigualdade entre as classes proprietárias e as demais tornou-se abissal e foi sobre este capitalismo que se abateu a pandemia do Covid 19. 

A presente crise tende a aumentar ainda mais a desigualdade. O aumento da desigualdade interna aos países se projeta em decorrência do desemprego em serviços, do ‘digital divide’ e da precariedade dos mercados de trabalho. 

Por outro lado, é de se esperar um aumento da desigualdade entre países segundo a maior capacidade de algumas nações de aproveitarem as novas oportunidades e tecnologias digitais. Os perdedores deverão ser os países com sistemas de saúde precários e elevada densidade populacional habitando em favelas, países muito dependentes de comércio externo e de turismo e aqueles detentores de pesada dívida externa e dependência aos fluxos financeiros voláteis.

Mas este é um cenário de conflitos políticos e eventuais insustentáveis sublevações. É possível (como antes observado) que as pressões sociais para a manutenção de esquemas de sustentação de renda mínima, políticas de emprego ganhem maior sustentação política. Por outro lado, pela experiencia de planejamento e coesão social evidenciada na China em seu vitorioso enfrentamento do Covid19 seja possível construir um repaginado Capitalismo Regulado em que as burocracias, a racionalização da economia pelo planejamento e a expansão da provisão pública dos bens e serviços de mérito prevaleçam com aumento dos investimentos públicos em P&D particularmente na área da saúde com uma redefinição e reestruturação do público e do privado.

4) C.P.B: Antes da pandemia já havia uma tendência a utilização de comércio digital, AI, aceleração das redes digitais. Essa pandemia mostrou pelo menos na China a capacidade da Inteligência Artificial de interceder na ordem social permitindo maior eficiência do isolamento. O próprio isolamento deve favorecer o comércio digital. Essa seria uma aceleração da tendência de concentração nesse setor? Essa tendência acirraria competição China e EUA? Ou os EUA tem uma vantagem competitiva muito grande?

C.M.: Eu vejo um cenário de continuidade e de aprofundamento de transformações já em curso. Em relação à continuidade pode-se apontar certos elementos estruturantes das relações internacionais atuais como a força do dólar, o predomínio global das corporações americanas e do poder militar dos EUA. 

Em relação às tendências já em curso e que devem ser aprofundadas ampliando as diferenças nacionais pode-se elencar:

a) O desabastecimento e o deslocamento da cadeia de supridores de bens intermediários para a Ásia revelaram sua fragilidade estrutural e desse modo uma desintegração das cadeias produtivas globais visando maior densidade industrial nacional (um processo que já estava em curso antes da crise) deverá aumentar em indústrias específicas acelerando a diminuição das CGV;

b) A combinação entre Inteligência Artificial e a prestação de serviços em todas áreas (serviços médicos, educacionais, consultoria às empresas, etc.) deverá se aprofundar e as grandes plataformas da economia digital (Amazon, Google, Facebook, Apple, Microsoft) (Ali Baba, Baidu) e comércio eletrônico deverão ampliar ainda mais seu peso na economia global. (A Google e Apple estão desenvolvendo aplicativo para rastrear o vírus por celular);

c) Como em toda a crise econômica é de se esperar forte aumento da centralização do capital, tendência que favorece as corporações americanas;

d) A rivalidade e a disputa tecnológica entre os EUA (4 olhos) e a China nos equipamentos de Telecom 5G deve aumentar;

e) A restrição ao deslocamento das pessoas entre fronteiras deverá aumentar e principalmente a vigilância (mass surveillance) e o controle das populações através da Inteligência Artificial.

Como resultado destas tendências é de se esperar um movimento de acirramento das disparidades nacionais, distributivas e acirramento das disputas geopolíticas, mas ao mesmo tempo o possível surgimento de eventuais forças que as contrabalancem.

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