Teoria Geral e Moeda Exógena

O objetivo desse breve texto é discutir o porquê de Keynes supor a oferta de moeda exógena na sua Teoria geral do emprego, do juro e da moeda (1936) e, com isso, oferecer uma discussão monetária mais pobre do que fizera no seu Treatise on Money (1930).

Durante praticamente todo o século XIX a ciência econômica se preocupava principalmente com o longo prazo. Isso pode ser visto nos clássicos, como Smith e Ricardo, por exemplo. Pouco teorizavam sobre crises e ciclos. Analisavam as forças sistemáticas e persistentes da economia. Em Ricardo, isso se dá pelo uso consistente da lei de Say.

Os primeiros neoclássicos também estavam mais preocupados com a análise dessas forças persistentes. É o que está por trás, por exemplo, do equilíbrio geral walrasiano, do Wicksell e de outros autores: a determinação simultânea do nível de produto, do emprego dos fatores de produção, dos preços relativos das mercadorias e dos preços relativos dos fatores. Temos em operação o Princípio da Substituição (também chamada às vezes de lei de Say na sua versão neoclássica), segundo o qual a relação capital/trabalho empregada na produção se ajusta aos preços relativos desses fatores, que, por sua vez, expressam sua escassez relativa. Desse modo o equilíbrio com pleno emprego é alcançado.

É apenas a partir do final do século XIX que há uma profusão de autores neoclássicos preocupados com a análise dos desvios em relação a essa posição de pleno emprego. Essas teorias tinham como objeto na maioria das vezes o ciclo econômico. Seu principal expoente provavelmente é Wicksell (de novo) com sua teoria do processo cumulativo. Mas há outros autores, mais ou menos conhecidos, como Hawtrey, Lavington, Robertson, Pigou, Keynes (antes da Teoria Geral) e Hayek.

O que todos esses autores têm em comum é que o obstáculo para que a economia convirja para uma posição de pleno emprego é a existência de alguma fricção ou rigidez, que impede o ajustamento no mercado de fatores de produção (capital e trabalho). Em outras palavras, a flexibilidade de salários reais e da taxa de juros era vista como condição necessária para tal equilíbrio.

É nesse ponto que entra a Teoria Geral. Keynes não quer propor mais uma teoria do ciclo ou dos desvios de curto prazo – isso já está explícito no próprio título da sua obra. E, como sabemos, o autor dos “Essays in Persuasion” queria convencer seus pares de sua nova teoria.

Para tanto, ele precisa construir um argumento segundo o qual o funcionamento normal da economia, a ação das forças sistemáticas e persistentes, conduzem-na a uma posição de equilíbrio abaixo do pleno emprego.

Keynes parece ser extremamente cuidadoso em relação a isso. Não há rigidezes impostas como hipóteses na sua Teoria Geral. Em outras palavras, não há nada para um autor neoclássico apontar como um entrave ao funcionamento normal das forças de oferta e demanda.

Keynes faz a hipótese de que os salários nominais são dados (unidades de salário), mas os preços não são rígidos, dependem do nível de produção (como pode ser visto no cap.18, por exemplo, e ao contrário do que impõe Hicks ao modelo IS-LM; por sua vez, os resultados de uma hipotética flexibilidade dos salários nominais são analisados no capítulo 19). De forma que o salário real é endógeno – variável crucial para o mecanismo neoclássico de equilíbrio. Ainda mais, o salário real é determinado pela produtividade marginal do trabalho, de modo semelhante aos modelos neoclássicos em geral – como Keynes deixa claro no capítulo 2.

Retomando agora o argumento da Teoria Geral, seguindo a leitura pós-keynesiana tradicional que afirma que o livro deve ser lido “de trás para frente”. O investimento se relaciona negativamente com a taxa de juros, por meio da escala da eficiência marginal do capital. Dado o nível de investimento e o multiplicador, temos o nível de renda e de emprego.

Justamente por haver essa relação inversa entre investimento e taxa de juros, o próprio Keynes afirma existir um nível de taxa de juros baixo o bastante que gere um volume de investimento alto o suficiente para que a economia alcance o pleno emprego.

Creio que é esse o ponto que mata a charada do porquê de a oferta de moeda ser exógena. Se Keynes simplesmente afirmasse que a moeda é endógena e a taxa de juros é exógena, determinada pela autoridade monetária, ele seria facilmente acusado pelos seus contemporâneos de não ter uma teoria geral – além de contrariar o senso comum da teoria monetária da sua época. Seria acusado de ter feito mais uma contribuição à teoria dos desvios em relação ao pleno emprego. O desemprego, nesse hipotético modelo, seria fruto da rigidez da taxa de juros.

Keynes, no entanto, toma o caminho mais difícil. Coloca a taxa de juros sendo determinada justamente pelas forças de oferta e demanda. A oferta de moeda é exógena e a demanda por moeda é explicada pela teoria da preferência pela liquidez. Por isso a importância do capítulo 17 discutindo as propriedades essenciais da moeda. Para mostrar que as forças de oferta e demanda por moeda não conseguem fazer a taxa de juros baixar até o nível que garantiria o pleno emprego. Com isso Keynes crê alcançar seu objetivo. Em uma economia sem nenhuma rigidez imposta por hipótese, com livre atuação das forças de oferta e demanda, com salários e juros determinados endogenamente, o resultado da ação das forças persistentes e sistemáticas da economia tende a ser uma posição de equilíbrio abaixo do pleno emprego.