UMA FARSA QUASE TRÁGICA: A ESQUERDA “MODERNA” E A AMEAÇA FASCISTA

De acordo com Josef Stalin (1934):

A vitória do fascismo na Alemanha deve ser vista não só como um sinal da fraqueza da classe operária e o resultado da traição da social-democracia, que abriu o caminho ao fascismo. Ela deve ser vista igualmente como um sinal da fraqueza da burguesia, um sinal de que a burguesia já não tem condições para exercer o poder segundo os métodos parlamentares da democracia burguesa, motivo pela qual se vê obrigada a recorrer, na politica interna, aos métodos terroristas de governo.

Em relação à nova ameaça fascista que enfrentamos atualmente a situação é parcialmente diferente. Nos anos 30 do século passado, os liberais toleravam o fascismo para barrar o crescimento da esquerda. Agora é a “nova” esquerda que está ajudando os fascistas a dar uma sobrevida ao neoliberalismo.

A nova esquerda, aquela que se ocupa e se preocupa predominantemente com direitos individuais em detrimento dos direitos sociais e dos interesses de classe, tem ajudado a promover e divulgar, muitas vezes de forma inconsciente, o pensamento do novo fascismo. Nas redes sociais e outros espaços públicos, a nova esquerda diariamente dá visibilidade às declarações e palavras de ordem da extrema direita, em nome de expressar seu repúdio e seu horror a elas – que de fato são execráveis. O resultado é que se cria uma percepção totalmente exagerada do grau de influência e de adesão popular que os medíocres “lideres” desta nova tendência direitista efetivamente têm. Se fossem capazes de pensar estrategicamente, esses líderes neofascistas certamente ficariam muito agradecidos.

O motivo mais profundo, consciente ou inconscientemente, deste comportamento generalizado é o de permitir que a nova esquerda mantenha seu apoio ao neoliberalismo como alternativa “viável”, com o pretexto de evitar o mal maior e a ruína da civilização pelo neofascismo. Neste sentido, Obama sistematicamente exagerou a influência do Tea Party nos EUA para vencer duas vezes as eleições e governar implementando abertamente uma agenda neoliberal – incluindo o Obamacare* – como se viu. Somente o péssimo desempenho da campanha que apresentava Hillary Clinton como candidata “progressista” fez com que esta inteligente estratégia não funcionasse, levando à inusitada vitória de Trump. As recentes eleições na França são outro exemplo do sucesso da mesma estratégia. Propondo uma plataforma rigorosamente neoliberal o “centrista” Macron (não por coincidência, até há pouco ministro no governo do Partido Socialista) recolheu amplo apoio da nova esquerda para derrotar a ameaça neofascista do Front National.

O mesmo processo está avançando no Brasil, onde a nova esquerda tem repercutido e amplificado bastante o impacto das posições de figuras lamentáveis como Jair Bolsonaro. Apenas o horror da nova esquerda ao “populismo” e a arraigada falta de vontade de criticar o neoliberalismo reinante impedem que a base popular da esquerda cresça e neutralize o crescimento do novo fascismo. É mais um exemplo da famosa frase de Marx (1852), que diz que a história se desenrola primeiro como tragédia (do fascismo na origem da Segunda Guerra Mundial) e depois se repete como farsa, que é o que vemos com esta reedição do fascismo na atualidade.

Notas

* WAITZKIN, H. & HELLANDER, I. (2016) “The History and Future of Neoliberal Health Reform: Obamacare and Its Predecessors ” in International Journal of Health Services, Oct;46(4):747-66

Bibliografia

MARX, K. (1852) “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”.
STALIN, J. (1934) “Relatório ao XVII Congresso do Partido Comunista da União Soviética”.

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