Sobre os Mitos do Capitalismo Americano e a Ascensão da Nova Direita

Todo poder necessita de mitos, isto é, construções ideológicas extraídas do senso comum que despertam nos indivíduos sentimentos de identificação e adesão, e, ao mesmo tempo, escondam ou relativizam as relações de poder reais que não encontram justificativas no senso comum.  Não há processo de mudança e seguramente não há processo de mobilização popular que não ataque os mitos preexistentes e construa novos mitos, uma nova utopia, como bandeiras aglutinadoras das massas.

Nos últimos anos a ascensão da nova direita tem ocorrido em diversos países através não de golpes de Estado, mas de vitórias eleitorais após intensa (e inédita para as forças de direita) mobilização de ‘corações e mentes’ reproduzindo e mesmo copiando os métodos historicamente utilizados pela esquerda em suas históricas lutas contra o poder e o status quo. Esta tese do ‘mimetismo’ de Thomas Frank sobre o ressurgimento da altright (Tea Party) nos EUA é bastante sugestiva não apenas para entender o Trumpismo mas para a ascensão da direita pois este movimento político e ideológico é geral ainda que conte com naturais idiossincrasias nacionais.

Com efeito, a nova direita (não apenas nos EUA) não se afirmou com um discurso de defesa de uma velha ordem e do status quo ameaçado pela esquerda, ao contrário ela se identifica como como força revolucionária contra os privilégios, injustiças e desemprego criados pela vigente estrutura de poder da qual a ‘esquerda’ no poder (isto é os liberais democratas, o novo trabalhismo, que regra geral abandonaram o projeto social historicamente identificado com a esquerda) é apresentada como diretamente responsável e é desta forma, como reação ao neoliberalismo e como promessa de mudança que tem ganho eleições através, não apenas de golpes midiáticos (embora estes existam) mas pela conquista (oh ironia! Antonio Gramsci deve estar se revirando) da hegemonia ou influência de relevante parcela da sociedade civil.

Mas como é possível ser revolucionário e ao mesmo tempo defender como programa máximo uma economia e sociedade capitalista centrada no livre mercado, na propriedade privada, na concorrência, na redução dos impostos e na redução ou mesmo eliminação do preexistente estado social? É evidente que tal programa não ganha qualquer eleição. É preciso se comunicar não apenas com a classe média, mas com os trabalhadores e os desempregados e convencer que esta agenda combinada com o nacionalismo (vagamente defendido como o emprego para os nacionais) é a resposta ao presente status quo. Este teria resultado não do capitalismo mas de sua versão espúria, do ‘crony-capitalismo’, do estatismo e mesmo do socialismo (reduzido a transferências sociais, provisão de bens públicos que embora em queda com a adesão dos liberais e socialistas ao neoliberalismo são apresentadas como responsáveis pela crise social), e do internacionalismo (neoliberalismo) aqui entendido como a subordinação da vontade nacional a interesses não nacionais. Tais políticas engendradas pela ‘ruling class’- esta expressão clássica da cultura marxista é hoje comumente referida nos encontros do Tea Party para descrever os intelectuais, os altos funcionários e os banqueiros- teriam marginalizado a pequena e média empresa e o trabalhador nacional. Face a este estado de coisas propõe-se uma nova utopia, estritamente liberal (libertária à Hayek e Von Mises) e capitalista travestida de novidade revolucionária.

 Nos EUA, em que o poder real é exercido em condomínio pelas grandes corporações, pelos grandes lobbies e pelo “deep state”, isto é, e aqui não me furto de uma ironia, pelo ‘capitalismo realmente existente’ os “enabling myths” (promovidos em grande parte pelas grandes corporações e pela mídia) sempre foram a identificação deste país como a terra de oportunidades, com a liberdade, com a livre iniciativa, com a meritocracia, com o pequeno empresário empreendedor,  com Thomas Jefferson. Embora estes mitos estivessem sempre presentes na construção da nacionalidade americana, a disputa política entre a direita (no partido republicano) e os liberais de centro-esquerda do partido democrata poucas vezes questionou o poder do capitalismo realmente existente. Com a virada conservadora do partido democrata desde os anos 1980, o conluio tornou-se ainda maior e a divergência política limitou-se à tributação e as às transferências sociais. Com a grande crise de 2008 e com a extraordinária concentração da renda e riqueza e mal-estar social, a nova direita dentro do Partido Republicano se apresentou (a despeito de ser financiada pelo big business) como novidade identificando-se com o homem comum enaltecido pelos “mitos fundantes” do capitalismo americano.

Surgiu também no Partido Democrata uma esquerda (liderada por Bernie Sanders) que propõe, exatamente o oposto, a regulação e a democratização do capitalismo realmente existente, mas esta perspectiva socialdemocrata perdeu a indicação para liberal Hilary Clinton que perdeu a  eleição para D Trump.  A ver 2020. 

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