Os trabalhadores não se aposentarão por medo de não se aposentarem

A discussão sobre a reforma da previdência naturalmente que só faz se justificar mais com a queda progressiva da arrecadação numa economia que não cresce e que todos parecem “esquecer” que crescer significaria arrecadar mais. Isso de um lado. De outro, com mais desempregados, seguros-desemprego, famílias desoladas e sem saúde mental que reverbera em pouquíssimo tempo para a saúde física, dificuldade de trabalhar, depressão, invalidez ou morte, que aliás também aumenta muito com o aumento da violência urbana e com as catástrofes resultantes de um Estado que fomenta o espírito da violência, da intolerância e da segregação social, aumenta mais ainda a ponta dos “gastos” previdenciários (ops, peraí, o nome técnico disso não é gasto, é transferência). Estado que, também na sua lógica de escassez eterna (como sempre diz minha mãe, aquela visão de que “não haverá nem m. para todos”…nem isso haverá) não vê espaço fiscal para investir em estatais e daí, já sabemos: Vale, Brumadinho, Mariana, enfim… a vida humana é uma externalidade negativa. Não sobrando dinheiro para mais nada, com a economia respirando por aparelhos, e com a fadinha da confiança fazendo greve, nem eu , nem você , nem empresa privada alguma, desestatizada ou não, tem coragem de investir e, de novo, já sabemos que a economia vai em espiral pra baixo. Isto todo ser humano honesto intelectualmente e que se dispõe a pensar um pouquinho, já sabe.

O que mais me chocou hoje foi pensar em outra obviedade keynesiana a partir deste ponto. Com a clareza de que não me aposentarei mais nesta vida pelos moldes da Constituição de 88, só me restará tentar um fundinho de previdência privada, que, aliás, tecnicamente falando, e a despeito dos conselhos daqueles que apostam no sistema de capitalização, é burrice, pois não compensa a rentabilidade de aumentar a minha poupança privada por conta própria, numa linha de longo prazo com uma carteira diversificada de rentabilidade razoável e com baixo risco, via banco ou corretora. É o que os brasileiros, em regra, e ao longo do tempo vão começar a fazer quando sair a Reforma. Bom, aí, além da contribuição obrigatória, terão a poupança voluntária. E mesmo que esta poupança se dê pelo sistema de capitalização, o efeito é o mesmo – poupança, de toda forma, é sempre um vazamento do fluxo de renda. Exceto para aqueles que de fato estão impossibilitados de poupar qualquer quantia, devido à razões físicas de subsistência, este é o caminho natural daqui pra frente: aumento da propensão marginal a poupar agregada, pela via daqueles que podem poupar (os que já não podiam, continuam gastando tudo que ganham… enquanto ganham algum).

Há alguns cenários intermediários, onde se alega a possibilidade de uma mera compensação, através da desistência parcial do sistema público de previdência trocando-o por uma dessas estratégias privadas de poupança comentadas. Neste caso porém, o problema, do ponto de vista sistêmico, pode ser até pior. Inicialmente porque quanto menos se contribui formalmente, menos receita para o sistema previdenciário, dando mais força ainda para o tal argumento fatalista do “rombo”. Um tiro no pé do governo que tenta, afinal, “preencher o rombo” justamente com a reforma da previdência (de fato, não consigo entender onde nosso chamado “super-ministro” quer chegar quando diz que a reforma é para fechar o tal rombo e incentiva, ao mesmo tempo, um sistema de capitalização que desvia os fundos que se destinariam a isto). Mas este problema, se olhado dentro da ótica mais individualista possível, ainda poderia ser dito como “menor”, já que a contribuição formal adiciona fundos para o total do sistema público de repartição, que, como o próprio nome sugere, compreende um fundo de todos para repartir com todos – característica do Estado de Bem-Estar Social, atualmente em desuso – algo que, para o indivíduo no seu nível micro, digo, nano-econômico poderia ser pensado como irrelevante, se ele pudesse garantir que juntaria fundos individuais para a sua aposentaria e rezar muito para jamais adoecer e sofrer invalidez, já que, neste caso, não poderia usufruir da rede de proteção e assitência social pública. Mas o ponto é que, mesmo dentro dessas versões híbridas combinando fundos públicos e privados com ponderações diferentes entre os indivídos, em todas as hipóteses a poupança só tende a aumentar, mais ou menos, a depender do caso, mas, claramente, jamais tende a diminuir. Com o agravante de que, nas combinações mais perversas para o sistema público, a receita previdenciária tende a cair em proporção à sua substituição parcial por um sistema qualquer de fundo privado. Do jeito pior ou do jeito menos pior para a população que não tem mecanismos individuais de defesa, a tendência é a mesma: aumento da propensão marginal a poupar da economia.

Somando isso com todo o resto, bem… não preciso explicar em muitos detalhes o paradoxo da poupança. Basta lembrar que este paradoxo mostra que, no agregado, a tentativa de todos pouparem mais reduzindo o consumo, diminui a demanda agregada, o produto, o emprego e a renda, sem aumentar em nada a poupança agregada. Só me lembro com frequência da frase de efeito: para a economia e os trabalhadores como um todo, “o trabalhador perderá o emprego porque tem medo de perder o emprego “, dado que, mediante a crise visível, preocupado, o trabalhador sempre que pode, junta aquela poupança denominada por Keynes como tipicamente de “motivo precaucional”. Daqui fica fácil eventualmente refrasear em etapas a expressão acima, adaptada ao atual contexto para “o trabalhador perderá o emprego porque tem medo de não se aposentar” até chegar em “o trabalhador não se aposenta porque tem medo de não se aposentar”. Um bom slogan para o governo atual: totalmente verdadeiro mas que, para os incautos, ainda joga a culpa no indivíduo e seu baixo potencial empreendedor. E segue 2019.

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