Uma Análise Crítica do Modelo Kaldoriano de Crescimento Liderado Pelas Exportações

Nicholas Kaldor foi um dos mais destacados economistas do século XX. Seus trabalhos tratam de vários temas relacionados com teoria econômica, economia aplicada e a análise e proposição de políticas econômicas[1]. Em todas estas áreas suas idéias exerceram considerável influência e geraram acalorados debates. Todavia, segundo o próprio autor (Kaldor, 1989a[1986], p. 34; tradução nossa), “[…] ao longo de minha vida acadêmica [a] teoria econômica permaneceu meu principal interesse”. Como teórico, a mais importante contribuição de Kaldor foi sua análise do processo de crescimento econômico. Suas primeiras idéias sobre o assunto datam do final da década de 1930. Mas é a partir da década de 1950 que a análise do processo de crescimento econômico passou a ser o centro da reflexão teórica do autor. E assim foi até sua morte em 1986.

A última etapa de desenvolvimento das idéias de Kaldor sobre o processo de crescimento econômico começa em meados da década de 1960. Nela o autor reavalia profundamente algumas de suas idéias. Os modelos de crescimento econômico formulados por Kaldor de meados da década de 1950 até 1962 (Kaldor, 1960b[1955-6], 1960a[1957], 1978[1958] e 1978[1962]) supunham uma tendência das economias capitalistas industrializadas a crescer ao longo de uma trajetória de crescimento com pleno emprego da força de trabalho. Assim, as diferenças observadas entre as taxas de crescimento dos países seriam explicadas basicamente pelas diferentes taxas de crescimento da produtividade do trabalho. Essas diferenças, por sua vez, estariam relacionadas com fatores de cunho sociológico que explicariam o maior ou o menor “dinamismo tecnológico” de uma economia de acordo com a postura dos empresários frente ao risco inerente à geração e à introdução de mudanças nos processos produtivos.

O primeiro passo na reavaliação de suas idéias se deu com a investigação acerca das “leis” de crescimento econômico em seus trabalhos na segunda metade da década de 1960 (Kaldor, 1978[1966], 1967 e 1978[1968]). Estes trabalhos levaram o autor a abandonar a hipótese de pleno emprego da força de trabalho e sua explicação do tipo “weberiano” para as diferenças nas taxas de crescimento dos países[2]. Como resultado destas mudanças o autor fica sem uma teoria do crescimento minimamente articulada, o que o levou a desenvolver um novo arcabouço teórico para a análise do processo de crescimento econômico. Este arcabouço é constituído por dois modelos básicos: o modelo de crescimento liderado pelas exportações e o modelo de crescimento a dois setores (agricultura/indústria).

O presente trabalho trata especificamente do modelo kaldoriano de crescimento liderado pelas exportações. Esse modelo foi desenvolvido por Kaldor ao longo das décadas de 1970 e de 1980[3]. No seu arcabouço teórico ele tinha o papel de prover o autor com uma explicação objetiva e empiricamente testável para as diferenças observadas entre as taxas de crescimento dos países[4]. O modelo kaldoriano de crescimento liderado pelas exportações é, como veremos a seguir, o resultado da combinação de um modelo de crescimento liderado pela demanda e uma condição de equilíbrio do balanço de pagamentos. Sendo assim, organizaremos a presente trabalho da seguinte maneira. Em primeiro lugar, vamos tratar do modelo de crescimento liderado pela demanda (seção 1). Em segundo lugar, discutiremos a condição de equilíbrio do balanço de pagamentos usada por Kaldor em seus trabalhos no período, analisando as hipóteses usadas pelo autor para tornar compatíveis seu modelo de crescimento liderado pela demanda e tal condição de equilíbrio (seção 2). Em seguida discutiremos o modelo de crescimento liderado pelas exportações que resulta de tal compatibilização e sua explicação para as diferentes taxas de crescimento das economias capitalistas (seção 3). Finalmente, concluiremos o trabalho com uma avaliação crítica do modelo kaldoriano de crescimento liderado pelas exportações (seção 4).

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