Inflação e Estabilização

Durante os anos 80, a grande maioria das economias da América Latina registrou processos inflacionários persistentes, com elevadas taxas, sem precedentes mesmo para uma região com longa tradição inflacionária. Além desta, outra novidade atingiu a região naquele período: mesmo os países que conseguiram levar adiante com grande sucesso seus projetos desenvolvimentistas do pós-guerra, como Brasil e México,
tiveram então suas economias praticamente estagnadas.

Ao final da década de 90, ainda que permanecesse o desempenho medíocre em termos de crescimento econômico, toda a região apresentava taxas de inflação muito reduzidas, mesmo para os padrões históricos inflacionários do continente. Em torno de tais fatos da história econômica da América Latina consolidou-se
uma interpretação aceita de forma praticamente consensual entre economistas e mesmo no senso comum. De forma simplificada, essa interpretação pode ser resumida nos termos apresentados abaixo.

Durante muitos anos, os países da América Latina foram guiados por política macroeconômicas “populistas”, que deixaram como consequência mais funesta processos inflacionários incontroláveis e que terminaram por destruir o próprio alvo maior das políticas desenvolvimentistas: o crescimento econômico acelerado. Após
algumas “aventuras heterodoxas”, todos os países, um a um, foram aprendendo da forma mais difícil a dura lição da responsabilidade fiscal, cuja inobservância seria a causa fundamental da inflação e, por consequência, de todos os enormes desajustes macroeconômicos que daí decorrem. Segundo essa interpretação, tais aventuras não foram de todo inúteis, já que alguns de seus elementos relacionados à “coordenação dos
agentes econômicos” acabaram aceitos como parte do receituário básico das políticas de estabilização de sucesso nos anos 90, que no entanto tinham como peça central o equilíbrio fiscal. Assim, déficit fiscal levaria a descontrole da emissão monetária, tendo como resultado excesso crônico de demanda agregada, responsável pela inflação.

A interpretação ortodoxa da inflação e da estabilização dos 80/90 acabou convergindo para fiscalismo quase fundamentalista, que se tornou o norte da política econômica aplicada no continente na segunda metade dos 90. Vistas as consequências sobre o desenvolvimento desses países de tal opção de política econômica, a crítica à interpretação da inflação como fenômeno de excesso de demanda de origem fiscal se
torna relevante.

Interpretação alternativa, que segue a teoria da inflação de custos, aponta esse mesmo surto inflacionário como resultado de grave desequilíbrio externo, ocasionando persistente desvalorização do câmbio nominal, com impacto sobre os custos. A interação desse impulso externo com a dinâmica dos juros e salários nominais causaria uma espiral inflacionária.

O curioso em relação à interpretação que se tornou dominante é que os fenômenos ocorridos nos anos 80 e 90, dado seu caráter extremo, fornecem excelente oportunidade para a confirmação dos princípios básicos da teoria da inflação de custos.

Os fatos apontam na direção de que os surtos inflacionários dos anos 80 são consequência direta da deterioração das contas externas dos países latino-americanos e do virtual estancamento dos fluxos voluntários para os mesmos. Da mesma forma, as estabilizações que se consolidaram nos anos 90 refletiram um movimento simétrico, qual seja, a melhoria das contas externas desses países e principalmente seu retorno ao mercado internacional de capitais. No caso brasileiro, essa diferença explica tanto o fracasso quanto o sucesso de dois planos de estabilização fortemente heterodoxos, como são os casos do Cruzado em 1986 e do Real em 1994.

Nossa contribuição, nesse trabalho, é o desenvolvimento de uma interpretação tanto da inflação dos anos 80 e 90 quanto de sua estabilização, baseada na abordagem da inflação de custos, assumindo a questão externa papel crucial em ambos os eventos. Na primeira seção procuramos caracterizar as mudanças nas condições estruturais externas da América Latina, que explicam tanto o surto inflacionário como seu posterior estancamento. Nessa seção fazemos também uma comparação com fenômeno histórico similar, as hiperinflações dos anos 20 em alguns países europeus, não só nos seus aspectos empíricos como também no que se refere à interpretação teórica do mesmo fenômeno. Essa comparação nos dá um parâmetro e ajuda a organizar a discussão sobre os fenômenos latino-americanos recentes.

Na segunda seção, retomamos o desenvolvimento teórico do pensamento heterodoxo latino-americanos, o qual enfatizava o impacto da restrição externa sobre a inflação, cronicamente elevada, no continente. Na seção seguinte são analisados os modelos de inflação de custos desenvolvidos nos anos 80 e identificados algumas de suas limitações, para compreender a dinâmica inflacionária do Brasil nos anos 80 e 90. Na quarta seção procuramos superar as limitações apontadas anteriormente, desenvolvendo uma discussão da relação, sugerida na literatura sraffiana, entre as taxas de juros e mark-ups nominais. Finalmente, na última seção, essas ideias são utilizadas para uma releitura das experiências dos Planos Cruzado e Real.

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