Estrategias Nacionais de Desenvolvimento

Depois de décadas de ampla expansão dos processos de integração das economias nacionais numa vasta rede internacional de comércio e investimentos, observou-se uma grande polarização formada por um pequeno grupo de países ricos, um também reduzido grupo de países de renda média e uma vasta maioria de países econômica e socialmente pobres. Essa polarização teve origem na concentração das atividades industriais inovadoras, infraestrutura, recursos humanos qualificados em poucas nações e regiões e na dispersão espacial e nacional dos recursos naturais, nas suas indústrias processadoras e das indústrias intensivas em trabalho não qualificado.

A difusão parcial e limitada da industrialização no pós-guerra (e, em particular, das indústrias e atividades mais próximas às atividades inovadoras, como o setor de bens de capital) foi uma decorrência de estratégias nacionais lideradas por Estados desenvolvimentistas, voltadas especificamente para reproduzir, em condições de atraso (e, em muitos casos, a partir de uma posição periférica), a indústria moderna e a sua infraestrutura como principal máquina de crescimento econômico.

O desenvolvimentismo foi, ao lado do keynesianismo, uma estratégia de acumulação e uma ideologia predominante coordenada pelos Estados nacionais, favorecendo a formação de grandes empresas industriais e seus mercados. Estratégias nacionais desenvolvimentistas foram seguidas em diversos países e assumiram diferentes vias segundo o tamanho da economia, a base de recursos naturais, a distribuição de renda, a inserção geopolítica (isto é, acompanhada por maior ou menor ambição e autonomia política e militar), o poder político subjacente a essa estratégia e as desiguais oportunidades criadas pelos países mais avançados. O maior ou menor sucesso dessas estratégias dependeu da combinação dessas circunstâncias internas e externas.

Tais estratégias foram desafiadas desde os anos 1980 por diferentes circunstâncias. A ofensiva Reagan-Thatcher contra o estado keynesiano nos países centrais, a desregulação financeira, a crise da dívida externa na periferia, o colapso da URSS em 1991, a um tempo em que se iniciava e se difundia uma nova revolução tecnológica baseada na informação e telecomunicação, levaram a mudanças pronunciadas na divisão do trabalho, diluindo os territórios nacionais produtivos e financeiros erigidos no pós-guerra. Essas transformações, traduzidas no plano ideológico pelo triunfo do neoliberalismo, denotavam a emergência de novas coalizões sociopolíticas e estratégias de acumulação favorecedoras de maior autonomia e poder aos capitais privados e em particular ao capital financeiro.

Entre os países industrializados, as grandes empresas, expostas a intensa concorrência internacional, buscaram maior autonomia frente ao Estado, aos trabalhadores e à cadeia de fornecedores domésticos ao mesmo tempo em que requeriam maior apoio deste ao seu processo de internacionalização produtiva e financeira em novas configurações espaciais e regionais.

Nos países recém-industrializados, o impacto das transformações foi maior, tendo em vista uma menor diversificação produtiva e maior dependência de suas indústrias a regulação do sistema financeiro e do mercado interno. Ocorreram novas especializações produtivas e duas estratégias distintas. Em muitos países, em particular na América Latina e Europa Oriental, sob o peso da dívida externa e das novas coalizões de interesses internos e externos em torno da agenda de reformas do Consenso de Washington, houve o abandono de estratégias de desenvolvimento centradas na indústria e na nação como escala predominante de acumulação. Essa estratégia “integracionista”, como denominou Amsden (2001), foi centrada na reespecialização em atividades com vantagens absolutas de custos (quer na indústria como no México, quer em recursos naturais como na maioria dos países da América do Sul e Rússia) e no financiamento e investimento externo como motores do crescimento.

Tal estratégia, entretanto, não foi seguida por todos. Alguns países asiáticos, notadamente China e Índia (ambos com poder militar e inserção geopolítica autônoma), seguiram um caminho de maior autonomia ou de maior resistência, preservando a estratégia nacional desenvolvimentista e de abertura seletiva sob novas condições.

Posteriormente, alguns países que seguiram o primeiro caminho, diante dos magros resultados obtidos e das mudanças no contexto internacional, têm buscado a reconstrução de estratégias nacionais situadas entre essas duas vias.

Além desta apresentação, este texto desdobra-se em cinco seções. Na primeira, de caráter introdutório, explora-se a conexão entre estratégia e estrutura do desenvolvimento. Na segunda, discutem-se as relações entre o keynesianismo e o desenvolvimentismo no pós-guerra. Na terceira, examinam-se os padrões e estratégias nacionais de desenvolvimento construídos entre 1950-1980. Na quarta, discutem-se a ascensão do neoliberalismo e a crise das estratégias de desenvolvimento, enfatizando-se as diferenciações nacionais e regionais. Na quinta e última seção, abordam-se as estratégias nacionais de desenvolvimento no novo milênio.

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